Há um abismo entre preparar um milk-shake caseiro e tomar um frappuccino de baunilha no Starbucks. E o Golden Circle, tema deste guia, é capaz de explicar que essa diferença vai muito além do paladar.
A receita feita em casa pode até surpreender nossas memórias gustativas, mas, na maior cadeia de cafeterias do mundo, teremos uma experiência, digamos, multissensorial.
Além da música ambiente, há o cheirinho de café, o som formado pelo preparo das bebidas e os atendentes chamando você pelo nome e escrevendo-o no copo que lhe será entregue quando seu pedido estiver pronto.
Fora isso, existe uma preocupação da rede em estimular o senso de comunidade entre o público. O próprio estilo e a disposição da mobília contribuem para isso, à medida que fazem lembrar nossa casa ou nosso ambiente de trabalho.
Ou seja, tomar um frappuccino de baunilha no Starbucks não significa simplesmente ingerir uma bebidinha. Há um alto valor agregado nesse produto.
Bom, por mais que você ainda não conheça o conceito do Golden Circle, saiba que marcas que geram impacto e são capazes de engajar pessoas, como é o caso da Starbucks, utilizam esse método.
Vamos juntos conhecê-lo a fundo?
O que vem a ser o Golden Circle?
Golden Circle — ou Círculo Dourado em português — é uma metodologia criada pelo inglês Simon Sinek, que é escritor, palestrante motivacional e especialista em liderança.
Esse método busca ajudar empresas e líderes a encontrar o seu propósito, gerar valor e, consequentemente, causar impacto, inspirando e engajando pessoas.
Para alcançar esse objetivo, Sinek orienta que, antes de lançar um produto ou serviço no mercado ou apresentar uma ideia ao time, por exemplo, é importante entender os valores por trás deles.
E, para essa compreensão acontecer de fato, o autor propõe três perguntas, que devem ser respondidas nesta ordem: “por quê“, “como” e “o quê“?
Pela sequência, percebemos que, em primeiro lugar, deve-se pensar no propósito da empresa. Ele é que irá nortear a criação da marca e o reconhecimento dela por parte do público, inclusive o interno.
O segundo passo do Golden Circle é pensar em como agir para que esse propósito seja concretizado.
Por fim, o que deve ser criado efetivamente e oferecido ao público depois que as questões anteriores forem resolvidas.
Quer ver só como o propósito da marca interfere na conexão que criamos com ela?
Imagine que você pretenda comprar um notebook e, navegando pela Internet em busca do melhor custo-benefício, encontre descrições do tipo: “processador 4-core, cache de 8 MB, até 4.2 GHz, placa de rede 802.11ac e memória expansível até 16 GB”.
Para quem não tem um mínimo conhecimento de informática, essas informações soam como grego, não é mesmo?
Por outro lado, quando você decide navegar pelo site da Apple, irá se deparar com descrições do tipo: “usina criativa”, “potência pura para profissionais”, “até 20 horas de duração de bateria”.
Provavelmente a identificação com a gigante tecnológica se dará automaticamente, o que não acontece com a marca por trás do primeiro notebook pesquisado, pois ela só apresenta dados técnicos (o “o quê” do Golden Circle) do que o produto oferece.
Deu para perceber o quanto o propósito de uma marca faz toda a diferença na divulgação do que ela comercializa e, como consequência, na impressão causada nos consumidores?
Desbravando as três camadas do Golden Circle
As três perguntas que compõem o Golden Circle são comumente abordadas no contexto da metodologia como “esferas de trabalho“.
Essas “camadas” devem levar as empresas não só a atuar na linha de frente, oferecendo produtos e serviços, mas também a extrair o seu máximo potencial enquanto marca para criar um engajamento entre o público-alvo.
Vamos explorar cada uma das perguntas do Golden Circle?
Por quê?
O que deve ser apurado neste ponto de partida do Golden Circle é: “qual é a razão de existir da sua empresa (ou ideia)?”.
Outra questão importante para desenvolver aqui diz respeito ao diferencial da sua empresa diante da concorrência.
Ao ter como lema “Just do it” (algo como “Apenas faça”, em português), a Nike deixa claro que não vende produtos esportivos meramente.
Ela tem como valor (“por quê”) incentivar as pessoas mundo afora a fazer o que precisa ser feito.
Começar com “por quê” serve para empresas de todos os portes e segmentos e também para ideias coordenadas por lideranças em geral.
Ao responder “por quê”, fica mais fácil pensar no caminho que as organizações vão seguir.
Dessa forma, gestores conseguem se comunicar com mais clareza com os stakeholders, inspirando-os, aumentando a satisfação do público com a marca e, portanto, elevando seu valor.
Como?
O segundo passo do Golden Circle é perguntar “como”, isto é, qual caminho deve ser percorrido para que o propósito definido na etapa “por quê” seja cumprido?
Este é o momento de fazer o planejamento estratégico da empresa contendo os processos e métodos que serão empregados no negócio.
Continuando a usar a Nike como exemplo: como ela consegue colocar em prática o “Just do it“?
Oferecendo equipamentos esportivos de alta qualidade para ajudar o público a desempenhar da melhor maneira possível o que precisa ser feito.
O quê?
Depois de definir o propósito da sua empresa e traçar um caminho para alcançá-lo, é chegado o momento de pensar no que de fato você irá entregar ao cliente.
Questões como “o que a sua empresa oferece” e “quais são as atividades desenvolvidas nela” devem ser respondidas.
As camadas anteriores (“por quê” e “como”) irão culminar nesta daqui, mostrando que o Golden Circle funciona de dentro para fora.
Isto é, ele só faz sentido por conta de um motivo estabelecido pelo seu idealizador, e não por razões impostas por fora.
Ainda usando a Nike como referência, nesta etapa, basta pensar nos produtos que ela oferece aos clientes: tênis confortáveis e com design moderno; roupas com corte e tecido adequados para atividades físicas etc.
O Golden Circle e o cérebro humano: entenda a relação
As três camadas do Golden Circle podem perfeitamente ser comparadas à estrutura do cérebro humano.
Se o analisarmos de cima para baixo, é possível ver que ele é dividido em três componentes principais, sendo que dois deles nos interessam aqui.
O nosso cérebro mais novo, o neocórtex, relaciona-se com o “o quê” do Círculo de Ouro. Já “como” e “por quê” estão ligados ao sistema límbico.
Vamos entender melhor essas relações?
Neocórtex e sua relação com o “o quê”
Assim como o “o quê” dentro do Golden Circle, o neocórtex corresponde à parte externa do nosso cérebro.
E essa semelhança não se refere apenas à posição que ambos ocupam, mas tem a ver também com as funções que desempenham.
O neocórtex está associado à linguagem racional e analítica. É ele que constrói o que nós pensamos. Graças a essa capacidade cerebral, é simples perceber o que as empresas e as pessoas fazem.
Sistema límbico e a ligação com “por quê” e “como”
Também chamado de reptiliano, o sistema (ou cérebro) límbico é o responsável por nossas sensações, sentimentos, comportamentos e, vejam só, pelas tomadas de atitude.
Então, nossa identificação com determinada marca não se dá pelas vias mais racionais (neocórtex), e sim, emocionais (sistema límbico).
Por isso, cada vez mais, percebemos que as empresas inspiradoras exploram a afetividade com o público para manter com ele uma relação duradoura, em vez de apenas oferecer preços baixos, por exemplo.
Como surgiu o Golden Circle?
A ideia do Golden Circle foi encabeçada por Simon Sinek, já apresentado aqui neste guia, e passou a ser mais difundida quando ele lançou o livro “Starts With Why“. No Brasil, ele foi intitulado “Comece pelo porquê“.
Na obra, Simon Sinek afirma que as pessoas são envolvidas muito mais por um senso de propósito e pertencimento do que por estímulos externos e/ou benefícios materiais.
Posteriormente, Sinek apresentou a palestra How great leaders inspire action (Como grandes líderes inspiram ação) na conferência TED Talk. O vídeo da apresentação soma 58 milhões de visualizações.
Para se inteirar melhor do seu tema de estudo, Sinek buscou entender por que líderes como Martin Luther King e empresas como Apple conseguem arrebanhar tantos fãs.
Daí, chegou à conclusão de que elas, através da manifestação de seus propósitos muito fortes, atingem o campo sentimental (sistema límbico) dos interlocutores, tornando-se inspiração para eles.
Ações para o Golden Circle funcionar na sua empresa
Quando alguém idealiza uma empresa, geralmente foca na solução que será oferecida aos consumidores.
Como vimos até agora neste guia, a intenção do Golden Circle é fazer o caminho inverso, ou seja, antes de anunciar os produtos e serviços da empresa, é fundamental pensar no valor agregado do que será oferecido — no propósito da marca.
Lembra-se do frappuccino do Starbucks citado na introdução? E do notebook da Apple mencionado depois?
Pois é. Esses produtos vão muito além de uma simples bebida e um mero computador, respectivamente.
Tendo esses exemplos como referência, além de aplicar as três camadas do Golden Circle na sua empresa, há outras ações que podem ser desenvolvidas para a metodologia funcionar por lá.
Confira a partir de agora.
Fuja de generalismos ao definir o propósito da sua marca
“Promover o bem-estar entre as pessoas”, “Surpreender pela excelência dos produtos” e “Melhorar a vida da sociedade” são escopos já bem batidos, né? Fuja deles.
Quanto mais específico você for na definição do propósito da sua marca, maior será o potencial de gerar identificação e conexão com o seu público-alvo, fazendo valer o conceito do Golden Circle.
Por exemplo, uma confeiteira que queira sobressair no Instagram pode oferecer um menu inclusivo, com produtos para alérgicos, destacando que a qualidade dessa linha segue a das receitas convencionais.
Pense na diferença que sua empresa fará na sociedade
Ao pensar no propósito da sua marca, tente responder às seguintes perguntas:
- Quais dores os produtos ou serviços resolveriam?
- O que eles trariam de novo para a sociedade?
- A sua comunidade seria beneficiada com o seu produto ou serviço no mercado?
Refletir sobre essas questões é muito importante, pois elas vão mostrar se a solução que sua empresa irá oferecer está alinhada a seu propósito, ajudando, portanto, na definição da camada “por quê” do Golden Circle.
Ponha-se no lugar do cliente
Outra maneira muito eficaz de estabelecer o propósito da sua marca é colocando-se sob a pele do consumidor.
Dessa forma, é possível pensar em uma solução com valor agregado que ainda não existe ou não é explorada no mercado.
Uma reflexão que pode ser desenvolvida aqui é a seguinte: “a resolução de problema A seria muito mais eficaz se houvesse uma solução B disponível“.
Marcas que utilizam o Golden Circle
Além da Starbucks, da Apple e da Nike, que foram mencionadas ao longo deste guia, antes de finalizá-lo, vamos mostrar outras marcas que utilizam o Golden Circle. Acompanhe!
A gigante das buscas foi idealizada com um propósito bem claro: “organizar as informações do mundo para que sejam universalmente acessíveis e úteis para todos”.
E esse propósito é muito bem-sucedido, pois o Google é reconhecido globalmente e utilizado para conectar pessoas e informações de todos os lugares.
Por meio de seus motores de busca que permitem aos usuários fazer pesquisas em computadores e dispositivos móveis, o Google atinge bem o seu propósito.
Coca-Cola
Basta assistir a um comercial da Coca-Cola para perceber que a empresa não aborda simplesmente o sabor do refrigerante.
Ele sempre é associado a momentos felizes, em que as pessoas compartilham sorrisos e criam boas memórias.
Esse estímulo explorado no marketing da companhia acaba nos inspirando de forma que, quando compramos uma Coca-Cola, na verdade estamos em busca da experiência feliz por trás da bebida.
Natura
A Natura é outra marca que sabe “a que veio”. O foco da empresa é na melhoria das relações possibilitada por pessoas que se sentem mais satisfeitas consigo mesmas.
Tanto o uso de fragrâncias quanto o de produtos cosméticos contribuem para a promoção dessa satisfação entre os consumidores da marca.
Considerando todo o conteúdo que abordamos aqui, você consegue definir qual é o propósito da sua empresa? Vale lembrar que repaginá-la também é uma opção.
O Golden Circle sem dúvida faz toda a diferença quando aplicado nas empresas, impactando inclusive a produtividade do time, que agirá com muito mais foco no propósito da marca. Leia um guia sobre o tema e aprenda a gerir melhor o tempo em seu negócio.