Os números do empreendedorismo feminino no Brasil são animadores. Em 2020, houve um aumento de 41% entre mulheres que empreendem em relação a 2019. Obviamente essa estatística é estimulante, mas é importante avaliar os fatos por trás dos números.
Deve-se questionar, por exemplo, se as mulheres empreendedoras trabalham nas mesmas condições que os homens empreendedores, levando em conta fatores como: carga horária, remuneração, acesso a crédito etc.
Outro ponto relevante a se analisar no empreendedorismo feminino é se as mulheres permanecem ocupando cargos culturalmente impostos a elas — seja na área da beleza, da confeitaria ou da moda.
Neste guia, vamos mapear os pontos-chave do empreendedorismo feminino no Brasil e mostrar como ele pode expandir para áreas até então relegadas às mulheres. Boa leitura, amigo(a) leitor(a).
O empreendedorismo feminino em números no Brasil
Acompanhe, a partir de agora, as principais (e mais atualizadas) informações sobre o empreendedorismo feminino no Brasil.
- No quarto trimestre de 2021, mais de 10 milhões de negócios estavam sendo gerenciados por mulheres no país;
- O Brasil ocupa o sétimo lugar no ranking dos países com maior número de mulheres empreendedoras;
- Embora o número de mulheres que empreendem seja expressivo por aqui, elas ganham menos que os homens, geralmente trabalham em dupla jornada (assumindo mais obrigações domésticas) e têm menos acesso ao crédito;
- Apenas 4,7% das empresas brasileiras são lideradas por mulheres;
- Por outro lado, praticamente metade dos lares brasileiros é sustentada por mulheres;
- No total de MEIs (Microempreendedores individuais), as mulheres correspondem a 48% desse grupo de empreendedores;
- Enquanto MEIs, as brasileiras atuam especialmente nos segmentos de beleza, moda e alimentação;
- Das startups brasileiras, só 4,7% delas foram criadas e inauguradas exclusivamente por mulheres;
- As empreendedoras são mais ágeis ao implementar inovações em seus empreendimentos — aproximadamente 71% usam apps, redes sociais e o ambiente digital para realizar vendas — e no público masculino essa taxa é de 63%;
- Apesar da crise econômica causada pela pandemia, as mulheres se mantiveram em destaque no empreendedorismo.
Pandemia e empreendedorismo feminino: entenda a relação
Como mostramos na introdução deste guia, entre 2019 e 2020, o empreendedorismo feminino deu um salto de 41%. Com isso, o Brasil passou a ter 30 milhões de empreendedoras.
De certa forma, esse aumento se deve às consequências da crise econômica gerada pela pandemia.
Um desses efeitos é a necessidade de as mulheres conciliarem as atividades profissionais com as demandas de casa e da família, especialmente em um país marcado pelo machismo estrutural como o Brasil.
Embora a falta de emprego desencadeada pela crise da Covid seja apontada como o motivo da alta do empreendedorismo feminino, desde 2016 o segmento vem apresentando um crescimento acelerado.
Em 2019, a presença feminina no empreendimento aumentou 19% (contra 10% dos homens) em relação ao ano anterior.
A sub-representatividade das mulheres no empreendedorismo
Se, de um lado, pode parecer um grande avanço o Brasil estar entre os sete países do mundo com o maior número de mulheres empreendedoras, é preciso lembrar que homens e mulheres estão longe de trabalhar em condições de igualdade.
Como já dissemos aqui, as mulheres se mantêm ocupando funções culturalmente impostas a elas, especialmente nos setores de alimentação, beleza e moda.
Além disso, elas recebem menos que os homens e, de quebra, têm acesso reduzido ao crédito.
Como se esses empecilhos não bastassem, a desigualdade de gênero no mundo dos empreendimentos é perceptível também na presença tímida das mulheres nos cargos de lideranças.
Segundo dados divulgados pelo IBGE em 2019, apenas 37,4% das posições gerenciais eram ocupadas por mulheres.
Além desses fatores, a relação das mulheres com o mercado de trabalho de forma geral passa por outros desafios, como: maternidade, jornada dupla (ou tripla) e discrepâncias salariais.
Em vista dessa realidade, a busca pelo empreendedorismo torna-se uma opção de exercer o protagonismo feminino, conciliando a carreira profissional com os tantos atributos inerentes à agenda da maioria das mulheres.
O empreendedorismo feminino precisa ser disruptivo
Não adianta o número de mulheres empreendedoras aumentar exponencialmente se as áreas de atuação desse público são sempre as mesmas.
As mulheres precisam ocupar espaços tradicionalmente dominados pelos homens: seja na política, no futebol, na área tecnológica e, obviamente, expandir o campo de atuação do empreendedorismo feminino.
Como já mostramos neste guia, apenas 4,7% das startups de tecnologia brasileiras foram fundadas por mulheres.
Para incentivar a equidade de gênero no mundo corporativo, as empresas precisam quebrar paradigmas e acolher o feminino enquanto recurso humano potente e transformador.
O Mercado Livre tem lançado mão de algumas iniciativas inspiradoras que envolvem o empoderamento feminino.
Uma delas é o patrocínio ao time de futebol feminino do Flamengo, estimulando, dessa forma, uma maior presença das mulheres nesse esporte majoritariamente masculino e promovendo mais equilíbrio de gênero.
Apoiar iniciativas que busquem inclusão por meio da educação, além de programas voltados à capacitação de mulheres para trabalhar com tecnologia também está na agenda positiva do Mercado Livre.
Outra preocupação da companhia é praticar dentro “de casa” as mudanças que deseja ver na sociedade.
Para isso, tem promovido diferentes ações voltadas ao empoderamento feminino. Duas delas são:
- Desenvolvimento de mecanismos para facilitar a (re)adaptação ao trabalho após a licença-maternidade, com jornada diminuída, mas sem redução de salário;
- Incentivo a mulheres que desejarem prolongar o ciclo de fertilidade por meio do custeio de parte do congelamento de óvulos.
Os efeitos da política inclusiva da companhia podem ser comprovados em números. As mulheres representam 49% dos mais de 13 mil colaboradores da empresa no Brasil e 43% das posições de liderança.
E a estratégia tem dado certo; tanto é que, segundo a consultoria Great Place to Work Brasil, o Mercado Livre foi considerado o melhor lugar para mulheres trabalharem no país.
Por que as mulheres não estão à frente das startups?
Se analisarmos os conceitos de empreendedorismo e de startup, veremos que eles, sob vários aspectos, se complementam. Vamos compará-los?
Sendo o Sebrae, o empreendedorismo corresponde à capacidade de uma pessoa de identificar gargalos e oportunidades, desenvolver soluções e investir recursos em algo que seja benéfico para a sociedade.
Já startup pode ser entendida como uma empresa que surge a partir de uma insight diferente, escalável e em condições de incerteza.
Associando os dois conceitos, é possível concluir que a ideia de empreendedorismo e de startup têm um denominador comum: a inovação.
E, se as mulheres conseguem ser originais e proativas nas frentes que assumem dentro do empreendedorismo feminino, por que elas são condenadas a ocupar sempre os mesmos espaços no mercado de trabalho? Por que elas não estão liderando startups?
Provavelmente por falta de referências. Em fintechs, por exemplo, os ambientes são predominantemente masculinos.
E, assim como na TV, as mulheres, durante muito tempo, se sentiram (e continuam se sentindo) sub-representadas, nesses segmentos, essa realidade se repete.
Para combater essa sub-representatividade, é importante haver um role model (modelo de função) que encoraje outras mulheres a seguir caminhos profissionais até então dominados pelos homens.
A dica que a fundadora da fintech Noh, Ana Maria Zucato, dá a mulheres que queiram empreender é transformar o “problemão” que o empreendimento feminino parece ser em “pequenos problemas”.
Isto é, compartimentar o que deve ser feito para o empreendimento vingar, pensando primeiro “no que você quer empreender” e depois “onde você vai buscar investimento” etc.
Outra recomendação feita pela Ana para mulheres que queiram abrir uma startup é buscar outras mulheres que já passaram por isso, de maneira que elas compartilhem seus desafios e conquistas.
Como anda a presença feminina na área tecnológica?
Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que a presença das mulheres no setor de tecnologia aumentou 60% nos últimos cinco anos.
Outro número animador foi trazido pelo Banco Nacional de Empregos (BNE), que identificou mais de 12,7 mil candidaturas de mulheres para vagas na área de tecnologia, sendo que o número anterior a esse era 10.375.
Mas a equidade de gênero no setor está longe de ser uma realidade. Segundo a Pesquisa de Remuneração Total divulgada pela Forbes, a área de tecnologia é a que possui maior desigualdade salarial entre os gêneros.
Mais um dado importante que cabe neste tópico: embora a área da tecnologia seja uma das que mais crescem — chegando a 60% em 2021 em relação a 2020 — apenas 4,7% de empresas com base tecnológica são fundadas apenas por mulheres.
E o pior é que esse percentual não aumentou muito nos últimos dez anos, período no qual ficou na casa dos 4,4%.
Quais barreiras o setor tecnológico impõe ao empreendedorismo feminino?
A primeira pedra no caminho que as mulheres que desejam empreender na área de tecnologia vão encontrar no setor é a alta competitividade aliada à presença dominante dos homens na área.
Outro desafio é o avanço rápido das tecnologias, que pode tornar a ideia inovadora de uma startup desatualizada do dia para a noite.
Então, para sobreviver à concorrência, é preciso criar um planejamento bem consistente para o futuro.
Nenhuma empresa se sustenta apenas de boas ideias. Deve-se dispor de fundos para materializá-las e torná-las rentáveis.
Contratar uma consultoria financeira é uma boa alternativa para conseguir fazer uma gestão financeira eficiente, que garanta a sustentabilidade da startup.
Como o empreendedorismo feminino pode superar os desafios da área tecnológica?
O primeiro passo para superar os desafios que a área de tecnologia (e outros setores dominados pelos homens) impõe às mulheres que querem empreender é praticar a sororidade.
Essa palavra da moda nada mais é que as mulheres agirem com irmandade, empatia, companheirismo e solidariedade umas com as outras.
Então, se uma mulher quiser abrir uma startup, por exemplo, não importa a área, na medida do possível, outras mulheres devem apoiá-la, a fim de transformar essa pretensão em meta alcançável, inspirando, assim, outras mulheres.
Hoje em dia, existem muitos grupos de mulheres empreendedoras que podem contribuir com o exercício do empreendedorismo feminino. O Rede Mulher Empreendedora (RME) é um deles.
Para as mulheres que são mães, conciliar a maternidade com o empreendedorismo tecnológico, por exemplo, vai exigir uma rede de apoio.
Isso porque, como já dissemos neste guia, o segmento de tecnologia muda a todo momento, já que as tecnologias avançam muito depressa e, para acompanhar toda essa rápida evolução, é preciso estar presente (e focada).
Sem uma boa rede de apoio, cumprir essa missão fica bem difícil.
Outra maneira de entrar no universo das tecnologias, predominantemente ocupado por homens, como já mencionado aqui, é participando de eventos de networking voltados para as mulheres.
Se nesses encontros houver mulheres investidoras em busca de ideias inovadoras, melhor ainda.
Vale lembrar que é importante conectar-se sempre com mulheres empreendedoras e buscar participar de seminários sobre orientação financeira e desenvolvimento de negócios.
Saas, PaaS e IaaS como aliados do empreendedorismo feminino
Primeiramente, vamos entender o significado de cada uma dessas siglas? Esses tipos de empresas podem ser grandes aliados das mulheres empreendedoras.
Saas
O Software as a Service (software como serviço) é a contratação de um sistema como serviço.
Em vez de sua empresa ter de comprar hardwares e softwares para funcionar na rede, ela contrata o Saas, que vai atender suas demandas específicas.
É como se, no lugar de comprar um carro, você andasse só de Uber, não tendo que pagar IPVA, combustível etc., apenas utilizando o serviço de deslocamento que o automóvel possibilita.
Das finalidades do SaaS, destacamos:
- Facilita a gestão empresarial;
- Automatiza as demandas de marketing;
- Otimiza o controle das tarefas e da produtividade;
- Promove a integração com outros softwares.
PaaS
O PaaS é a sigla para Platform as a Service (plataforma como serviço).
Aqui o provedor oferece acesso a um ambiente na nuvem onde as usuárias (no feminino, para lembrar que estamos falando de empreendedorismo feminino), podem construir apps.
Dentre as principais utilizações do PaaS, vale destacar: possibilidade de fazer implantação e teste de aplicações web e hospedagem de sites.
IaaS
Já o IaaS significa Infrastructure as a Service (infraestrutura como serviço).
O provedor oferece infraestrutura sob demanda, ou seja, é possível contratar a infraestrutura necessária para a sua empresa funcionar plenamente, sem a necessidade de adquirir um arsenal de softwares e equipamentos.
Algumas soluções IaaS mais conhecidas são as da Microsoft Azure e do Google Cloud.
Bom, todas essas três soluções (Saas, PaaS e IaaS) são super-recomendadas para startups, porque nenhuma delas exige altos investimentos e, por funcionarem sob demanda, podem ser atualizadas rapidamente.
Então, mulher, a tecnologia não precisa mais ser vista como um empecilho para você fundar a sua startup. Você pode muito bem se beneficiar dessas três soluções apresentadas e até desenvolvê-las (por que não?).
Vamos ficando por aqui, amigo(a) leitor(a).
Vimos que o empreendedorismo feminino precisa não só crescer em número, mas ocupar novos espaços e conquistar novas lideranças. Um tema que complementa essa abordagem é o Business Partner. Boa leitura e até a próxima!